A Internet usada com sabedoria

A Internet está sendo usada diariamente por milhöes de pessoas do mundo inteiro, de crianças recém alfabetizadas a bisavós. Uma série de redes eletrônicas interligadas por telefone e acessíveis a aqueles que têm um computador, ela é a maior agremiaçöes de dados e informaçöes já vista pela humanidade.

No que diz respeito à educação, ela oferece artigos recém lançados por centros de pesquisa de renome mundial, além de uma chance ocasional de consultar os peritos de cada assunto diretamente. Na política, inevitavelmente será usada por todos os partidos para expor suas visöes e pelos cidadãos para conduzir debates sobre os assuntos de seu interesse.

Também não é preciso aprofundar as oportunidades oferecidas pela rede para aqueles interessados em fazer compras, se entreter e interagir com outras pessoas—aos 84 anos de idade, minha mãe é apaixonada pelo seu grupo em rede (on line) de discussão literária. A Internet, quando usada com sabedoria, pode aumentar o acesso à informação e as chances de se discutir os assuntos mais importantes. Muitos de nós usuários esperamos, inclusive, que renove o debate público e a própria democracia.

Certas forças políticas conservadoras estão, no entanto, exigindo a geração de restriçöes na rede, restriçöes que podem dificultar o inviabilizar a manutenção de várias localidades (sites) valiosas. Estes grupos de interesse estão retratando a Internet com um meio de propagação de idéias politicamente subversivas, material pornográfico e falcatruas.

A solução que eles propöe variam da implementação de controles e regulamentos tecnicamente inviáveis à censura desenfreada da liberdade de expressão. Infelizmente, a polêmica raramente chega à grande imprensa com a seriedade necessária para uma discussão técnica e jurídica, uma vez que os críticos da rede insistem em dar ênfase exclusivamente a alguns incidentes sensacionalistas e da fácil atenção.

A força da Internet vem de sua própria transparência, do fato que tem alguma coisa para todo mundo. Essa qualidade pode ser fatalmente comprometida se tentamos reprimir materiais ou pontos de vista. É necessário, portanto, aprender a investir nas suas forças e aspectos positivos—e não perder tempo com suas possíveis influências corruptoras. Essa perspectiva pode ser ilustrada com dois exemplos de casos nos quais a rede parecia prejudicar os objetivos de certos países.

Logo antes das eleiçöes de maio de 1997, as autoridades francesas descobriram que uma lei proibindo a divulgação de pesquisas sobre intenção de voto estava sendo burlada pelos usuários da rede. O governo tinha um objetivo admirável ao proibir que as pesquisas fossem divulgadas nos últimos dias da campanha: impedir que as pessoas mudassem suas preferências por causa de impressöes superficiais sobre a opinião pública. Mas os relativamente poucos franceses com acesso à rede tiveram como ver os resultados das pesquisas, que estavam sendo divulgadas nos sites dos países vizinhos.

Naquele mesmo mês, o governo canadense tentou implementar uma lei eleitoral exigindo que todo material de propaganda política identificasse a pessoa ou organização responsável por ele. A exigência, como a lei francesa, tinha o objetivo garantir o caráter democrático das eleiçöes: temia-se que os militantes partidários usassem a rede para subverter as leis sobre financiamento de campanhas. Mas, a fim de defender um direito maior—a anonimidade—sites do mundo inteiro colocaram anúncios acessíveis para os canadenses.

Como responder a estas manifestaçöes da liberdade de expressão? As leis canadenses e francesas refletiam uma atitude negativa e cínica do eleitorado. Ao invés de restringir certos tipos de informação, os governos deveriam promover formas mais profundas e eficientes de envolver a população. E a Internet pode ser uma grande aliada nisso.

As pessoas podem, por exemplo, fazer perguntas diretamente aos candidatos pela rede, além de trocar idéias e manter um diálogo profundo com outros eleitores. Já os partidos têm a opção de divulgar suas posiçöes oficialmente para os interessados pagando um preço irrisório. E, com um eleitorado mais interessado e educado, os efeitos nocivos das pesquisas e da propaganda podem ser reduzidos.

Mas e quanto à pornografia, à propaganda racista e odiosa, à difamação e às outras excrescências desagradáveis que aparecem na Internet? Aqui, mais uma vez, precisamos apreender a responder a elas sem exageros. Ninguém é obrigado a consumir a pornografia. Ela está acessível a aqueles que a procuram e permanece restrita às telas de computador destas pessoas—um cenário bem diferente do vivido numa banca de revistas local, onde a comunidade inteira pode vê-la.

A chave para aceitar a Internet é compreender que todos têm uma chance de se expressar nela. É necessário apenas um pouco de estudo para erguer uma World Wide Web (uma página acessível pelo mundo a fora), serviço que a maioria das empresas de acesso à rede fornecem a seus clientes por um preço bastante razoável. Com ainda menos preparo, podemos enviar mensagens para vastos grupos de leitores, recorrendo aso grupos de notícias (newsgroups) e às listas de endereços (mailing lists).

A facilidade e a democracia do acesso é a grande contribuição da Internet ao debate e à educação pública. Mas nem todos são igualmente sábios e escrupulosos e precisamos sempre estar cientes que nenhuma mensagem ou página exposta na rede—não importa quão profissional ela pareça ser—passa pela revisão de especialistas independentes em precisão.

De fato, a Internet não oferece os controles de qualidade mais básicos impostos pelos jornais e revistas—a não ser no caso das páginas erguidas por instituiçöes de renome. E, escondidas nos cantos deste meio aberto e democrático, encontramos sites de caráter anti-social e ofensivo. Mas mesmo estas localidades dão prazer a algumas pessoas e, se elas nos incomodam, devemos apreender a rechaça-las como a manifestação das mentes patológicas de certos indivíduos.

Os incidentes ocorridos na França e no Canadá provaram que não é possível suprimir o que as pessoas querem fazer. É, portanto, melhor ignorá-las. A história da censura já mostrou que, sejam quais forem seus objetivos iniciais, ela nega o acesso do público a valiosos universos literárias, artísticas e de opinião política. E, no final das contas, a maior dádiva da Internet pode ser que ela nos ensina a confiar em nós mesmos: em nossos valores, nosso julgamento, e nossa habilidade de escolha e discernimento.


Andy Oram, 41 anos, é um editor da empresa O’Reilly & Associates, da cidade norte-americana de Boston, Massachusetts, das mais respitados do ramo de computação dos Estados Unidos, pela qual editou vários livros o assunto. Usuário da Internet há 12 anos, é também responsável pela página do grupo Profissionais da Computação pela Responsabilidade Social (Computer Professionals for Social Responsibility) na rede e por uma lista de discussão sobre a liberdade de expressão na rede.